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Sexo, Sexo, sexo.

Luis Fernando Verissimo

Sexo, sexo, sexo. Todo mundo só fala em sexo. Entreouçamos:

Merlusa Cavalcante, socialaite: "Acho que fui uma adolescente normal. Minhas fantasias sexuais eram com estrelas do cinema. Lembro que as paredes do meu quarto eram cobertas de fotografias de atores e eu me imaginava transando com todos eles... Rin Tin Tin, King Kong, o cavalo do Roy Rogers..."

Diva Gar, oceanógrafa: "Minha primeira transa foi num Volkswagen. Começou no banco de trás. Quer dizer, meu namorado foi pro banco de trás e eu fiquei metade no banco da frente e metade no banco de trás, sabe como é? Aí ele sugeriu que eu botasse uma perna pela janela e dobrasse a outra por baixo do banco da frente, no lado direito, enquanto ele tentava vir por cima do banco do lado esquerdo, aí eu comecei a dizer “Ai, ai”, e ele disse “Mas eu ainda não fiz nada”, e eu disse “Não, é que meu ombro ficou preso embaixo do freio de mão”. Aí ele disse pra eu recolher a perna que estava pra fora, e eu recolhi, mas fiquei com o joelho preso no volante e apoiei o cotovelo onde não devia e o meu namorado, coitado, deu um grito de dor. Aí eu pulei pra trás e bati com a cabeça no pára-brisa e ele saiu correndo pra chamar uma ambulância. Aí veio a ambulância e ele foi comigo para o hospital na parte de trás e aí, sim, deu pra transar legal porque tinha bastante espaço e até uma cama".

Miro Masaferro, corretor: "Eu e minha esposa temos relações sexuais três vezes por semana, às terças, quintas e sábados. Terças e quintas das dez às dez e vinte e sábados das onze às onze e quarenta, com um intervalo para gargarejo. Religiosamente. E uma rotina que mantemos há vários anos e que não pretendemos mudar, apesar dos protestos que ouvimos quando, por exemplo, estamos jantando num restaurante e eu digo 'Querida, são dez horas' e vamos para baixo da mesa. Eu acredito que o segredo para uma vida sexual feliz é o mesmo que para a saúde intestinal: a regularidade. O importante é nunca falhar. Não sei como vai ser hoje. Vamos estar num velório..."

Toca Tamborim, estilista: "Eu acho sexo uma coisa muito natural que acontece entre seis ou sete pessoas com apetites normais, um pouco de creme chantilly e um desentupidor de pia. Qual é o problema? As pessoas fazem um mistério. Ah, porque calda de chocolate suja a cama, ou o liquidificador e o vibrador juntos podem dar curto-circuito, e mais isso e mais aquilo. Qual é o problema, gente? Não foi Deus que nos botou no mundo com nossos corpos, e os arreios, e as ligas pretas? Pode haver coisa mais natural do que gel íntimo sabor framboesa? Poxa!"

Dico Tomia, almoxarife e poeta: "Eu acho que o sexo tem que ser entre pessoas que se amam, ou se gostam, ou se respeitam, ou então não se conhecem mas não têm nada mais para fazer entre as seis e as oito.

Senão fica uma coisa mecânica, entende?"


Sexo, sexo, sexo (parte 2)

Todo mundo só fala em sexo. Sexo, sexo, sexo.

Dani Ficada, maquiadora e estudante de comunicação: "Ouvi dizer que um russo descobriu uma nova zona erógena. Parece que é a primeira nova descoberta na área desde que um inglês estabeleceu a exata localização do clitóris, no século 19. O russo ainda não revelou onde é a nova zona erógena, que levará o seu nome, Paprovski, mas especula-se que fica num local inesperado, até agora pouco explorado, do corpo humano. Eu vibrei com a notícia porque, francamente, não aguento mais sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa. Nénão?"

Beto Neira, mestre-de-obras: "Mulher, pra mim, é a que quica. Sabe cumé? Vai e volta. Mulher que fica no chão, pra mim, não tem moral. Estatelada não tem perdão, qual é. Tudo no sentido figurado, claro".

Dina Vio, dona de casa. "Se eu traio? Traio. Mas com classe. Nada às pressas, sem cerimônia, sem um tuchê. Sabe tuchê? Também, eu devo ser a última mulher no mundo que ainda pede vermute doce".

Malcon Tado, tabelião e tenor: "Eu acho que na cama vale tudo, menos legumes. Já perdi a namorada porque disse que o meu limite era o pepino. E nos dávamos bem, ela também é do coral da igreja..."

Alma Naque, psicóloga: "Homem é como fruta. Você tem que pegá-los maduros, quando não estão mais verdes e ainda não começaram a apodrecer. Mas é um instante fugidio".

Rudi Mentar, analista de sistemas: "Língua na orelha. Decididamente, língua na orelha. O resto é para não-iniciados".

Flora Medicinal, motorista. "Eu gostava muito mais do antigo método de reprodução humana. Lembra como era? Tiravam uma costela do homem, por cesariana, sem anestesia, e faziam outra pessoa. A mulher ficava só na vida mansa, não era nem com ela. Depois mudou tudo e hoje a mulher é quem sofre para dar cria. Afinal, não é? 'Ele' é homem. Funcionou o lobby. Classe unida taí..."

Constancia Nureto, advogada: "Tem homem que pensa que 'educação sexual' quer dizer bater antes de entrar".

Xavier Nougat, cirurgião dentista: "O sexo é a coisa mais íntima que pode haver entre um homem e uma mulher, fora o casamento".

Mara Zul, nutricionista e vidente: "Usar o sexo só para a reprodução é como só sair com o carro para levar na oficina".

Mamuela Bacal, bibliotecária: "Todo mundo conhece o sadismo, que é o sexo feito à maneira do Marquês de Sade, e o masoquismo, que é sexo como gostava o Barão de Masoc, mas pouca gente sabe que existem outras taras sexuais ligadas à literatura. Por exemplo: o Jorge Luis Borgismo, quando o homem só chega ao orgasmo sendo açoitado por uma estudante de linguística dentro de um labirinto. O Ernest Hemingwayismo, que é quando o homem só se satisfaz transando com uma mulher e atirando num leão, ou vice-versa, ao mesmo tempo".

Mulam Bento, arquivista: "Eu sou masoquista e minha mulher é sádica, mas o que estraga o nosso relacionamento é o ciúme. Quando eu chego em casa com uma mancha vermelha na camisa, preciso jurar que não é sangue, é batom, senão ela tem um ataque histérico e, como castigo, não me bate. "


Domingo, 24 de abril de 2005.



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